92. Matt Mullenweg questiona a direção do WordPress

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Matt Mullenweg publicou uma avaliação extensa e autocrítica sobre o estado do projeto WordPress, questionando uma cultura de processos que, na sua perspetiva, paralisa a tomada de decisões, coloca as empresas acima dos contribuidores individuais e transformou o Five for the Future num programa que gera dados inúteis.

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Transcrição do programa

Olá, eu sou José Freitas e estás a ouvir o WPpodcast, que traz as notícias semanais da Comunidade WordPress.

Neste episódio, encontras a informação de 13 a 19 de abril de 2026.

No WordCamp Asia, em Mumbai, Índia, uma pergunta aparentemente rotineira durante a sessão final de perguntas e respostas desencadeou o debate interno mais intenso que a comunidade WordPress viveu em muito tempo.

Um participante perguntou ao painel qual era a melhor forma de uma empresa contribuir para o projeto. Dois dos committers mais ativos do core, Peter Wilson e Sergey Biryukov, deram a mesma resposta: patrocinar contribuidores a tempo inteiro. Matt Mullenweg, a acompanhar o evento à distância, discordou publicamente em tempo real, transmitindo a sua resposta através da equipa de comunicação da Automattic. O que se seguiu foi uma semana de críticas e autocríticas que voltou a pôr em cima da mesa questões que há muito estavam por responder.

A primeira thread começou no Make Core, onde Matt publicou uma reflexão sobre a fotografia de um crachá de conferência do evento, que viu circular nas redes sociais. No crachá aparecia a etiqueta “SELF EMPLOYED” em letras grandes. Isso levou-o a questionar em que momento o projeto começou a colocar os nomes das empresas acima de qualquer dado pessoal dos contribuidores, e se essa mudança de ênfase era saudável. A sua proposta concreta: os crachás deveriam mostrar o nome de utilizador no WordPress.org, a localização e o website do contribuidor, e não o empregador.

O caso do ticket no Trac

Mas foi no canal de Slack core-committers que a crítica se tornou mais extensa e mais contundente. O gatilho foi um ticket de Trac relacionado com o ecrã de Connectors do WordPress 7.0, criado por um colaborador da Automattic depois de uma conversa privada com um colega, e integrado durante a fase de Release Candidate sem discussão pública. Um contribuidor externo tinha assinalado a situação e enviado uma notificação a Mullenweg. Quando ele a reviu depois de regressar do WordCamp, descreveu-a como um microcosmo de todos os problemas que o projeto carrega.

O diagnóstico de Matt foi direto: o WordPress não está a ser derrotado pela concorrência, está a prejudicar-se a si próprio. Dezanove anos de crescimento sustentado perante críticos que previam o seu fracasso, e agora, segundo ele, o projeto passou anos a desfazer tudo o que o tornou bem-sucedido.

Apontou o excesso de processos como a causa principal:

  • regras de participação que garantem discussão pública,
  • consenso alargado
  • e horários de reuniões acessíveis globalmente,

todas razoáveis isoladamente, mas que em conjunto criaram uma cultura que torna funcionalmente impossível resolver questões menores sem semanas de conversas no Slack e dezenas de participantes. O acumular de mais de 8.000 tickets abertos no Trac, que o projeto optou por esconder atrás de uma query personalizada em vez de resolver, pareceu-lhe um exemplo perfeito dessa dinâmica.

Também foi crítico em relação ao estado do WordPress.org, apontando:

  • páginas com cabeçalhos demasiado grandes e pouco conteúdo,
  • uma página About que ainda não reflete a mudança de MySQL para MariaDB,
  • e uma navegação inconsistente entre secções.

E criticou o ecrã AI Connectors que ele próprio tinha impulsionado para o WordPress 7.0: demorou demasiado tempo a chegar e, quando chegou, mostrava ecrãs de erro.

Comparou o tempo investido com o ritmo a que a Cloudflare construiu o seu próprio CMS, EmDash, em dois meses.

O caso do Five for the Future

Em paralelo, no canal de Slack five-for-the-future, Matt foi igualmente direto em relação ao programa que lançou em 2014 para que as empresas dedicassem cinco por cento da sua capacidade a contribuir para o projeto.

O problema não é o conceito, mas sim a execução: o programa foi concebido para incentivar compromissos que nunca são verificados e não têm em conta se a atividade resultante está alinhada com os objetivos do projeto. Os dados que gera são, nas suas próprias palavras, “pior que inúteis.”

Identificou quatro problemas específicos:

  • a presença corporativa ofuscou voluntários, estudantes e contribuidores que trabalham no seu próprio tempo;
  • os compromissos são tratados como um fim em si mesmos e não como um primeiro passo;
  • não existe acompanhamento da atividade real depois de um compromisso ser assumido;
  • e as equipas Make perderam de vista a sua finalidade, em favor de objetivos intermédios e dinâmicas processuais.

As reacções

As respostas dentro do projeto foram variadas. Anne McCarthy, da Automattic, reconheceu que o pêndulo oscilou demasiado para o lado do reconhecimento corporativo e abriu uma proposta para desenhar um modelo-padrão de crachá que todos os WordCamps possam adotar.

Também apoiou a ideia de recuperar o papel de Lead Developer, cujo desaparecimento, acredita ela, deixou lacunas de responsabilização e tomada de decisão que se tornam visíveis em cada ciclo de lançamento.

Amber Hinds salientou que medir horas brutas favorece estruturalmente as grandes empresas, e propôs medir a proporção de horas disponíveis dedicadas ao projeto. Uma pessoa que contribui com metade do seu tempo está a dar proporcionalmente muito mais do que uma empresa cujas centenas de horas representam apenas cinco por cento da sua capacidade total.

Courtney Robertson levantou uma questão que circula desde 2024: quem é que realmente detém a infraestrutura do projeto. O WordPress.org pertence pessoalmente a Mullenweg, e Robertson pediu-lhe que isso fosse afirmado de forma clara e por escrito, para que os contribuidores compreendam que trabalhar nessa infraestrutura significa contribuir para o projeto, e não enriquecer um indivíduo privado.

Fora do Slack, o diagnóstico de Matt encontrou concordância considerável na comunidade em geral, embora a forma como o expressou não tenha tido a mesma receção. Várias figuras do ecossistema observaram que o tom e o estilo da intervenção seguem um padrão familiar: longos períodos de ausência sobre um tema, seguidos por uma intervenção extensa e carregada, que dificulta uma resposta construtiva. O termo “Matt Bomb”, criado há mais de uma década, começou a circular de novo.

Mullenweg encerrou as suas publicações de terça-feira com uma reflexão sobre Joost de Valk, com quem mantém um conflito público desde 2024 e que foi banido do WordPress.org depois de ter defendido publicamente o fim da sua liderança como “benevolent dictator for life”. Escreveu que gostava de ter apoiado mais as tentativas de de Valk para impulsionar mudanças no projeto. De Valk, que acompanhava a conversa no Slack da comunidade PostStatus, respondeu com um emoji de encolher de ombros.

Uma app para configurar um ambiente completo de desenvolvimento para WordPress Core

Um dos problemas mais recorrentes nos Contributor Days das WordCamps é que os participantes passam a sessão inteira a tentar configurar o seu ambiente local e nunca chegam realmente a contribuir.

Para resolver isso, a equipa publicou o WordPress Core Dev Environment Toolkit, uma aplicação de desktop disponível para macOS, Windows e Linux que configura um ambiente completo de desenvolvimento para WordPress Core sem pré-requisitos. O processo resume-se a instalar a aplicação, escolher uma diretoria, clicar, e ficar com um repositório wordpress-develop clonado, um servidor de desenvolvimento em funcionamento e a possibilidade de fazer alterações e gerar um patch pronto a anexar no Trac.

A ferramenta foi desenhada especificamente para o contexto de Contributor Day, em que o objetivo é que alguém passe de participante a autor do primeiro patch numa única tarde. Os organizadores podem partilhar o link de download com os participantes antes do evento, para que o possam instalar em casa com uma boa ligação, já que o download é algo pesado.

Automatização de processos

Diretamente em linha com a crítica que tinha lançado na semana anterior sobre o excesso de processos manuais no projeto, Matt Mullenweg publicou no Make Meta um apelo aberto: qualquer contribuidor é convidado a propor processos do WordPress.org que possam ser automatizados.

As respostas da comunidade mostram com clareza onde estão os bloqueios mais óbvios. A revisão de plugins é a área mais mencionada: com mais de 500 submissões semanais e tempos de espera para a primeira revisão superiores a duas semanas, alguns propõem deixar a IA fazer uma primeira triagem, enquanto os revisores humanos se concentram em casos limite, recursos e relatórios de segurança.

Outras propostas abrangem:

  • aprovações de eventos da comunidade, cujo processo também se pode arrastar durante semanas;
  • respostas iniciais automáticas nos fóruns de suporte;
  • triagem de tickets no Trac, incluindo deteção de duplicados, pedido de informação em falta e arquivo de tickets inativos;
  • geração automática de resumos semanais das equipas com base nos registos do Slack e do GitHub;
  • e revisão totalmente automatizada do diretório de temas, sem intervenção humana.

A resposta de Mullenweg foi breve, mas clara: “preparem-se.”

Comunidade anuncia patrocinadores globais

A equipa de Community anunciou os patrocinadores globais do programa de eventos para o período entre o segundo trimestre de 2026 e o segundo trimestre de 2027. Estão envolvidas três organizações: a Automattic, com as marcas Jetpack e WordPress.com, e a Hostinger como Global Leaders, e a Woo como Regional Powerhouse.

O seu apoio cobre os custos operacionais que tornam possíveis os WordCamps e os Meetups ao longo do ano: aluguer de espaços, catering, equipamento audiovisual, licenças para mais de 685 grupos ativos em todo o mundo, e seguros para eventos. Os organizadores de eventos em 2026 devem incluir os logótipos destes parceiros nos seus websites e podem contactar cada empresa para confirmar qual a marca específica que os representará no seu evento.

E por fim, este podcast é distribuído sob uma licença Creative Commons como uma versão derivada do podcast em espanhol; podes encontrar todos os links para mais informação, bem como o podcast noutras línguas, em WPpodcast .org.

Obrigado por ouvires, e até ao próximo episódio.

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